Homem de boina e óculos filma com o celular em uma das salas verdes do Instituto Collaço Paulo, com o autorretrato de Hassis e outras pinturas emolduradas na parede ao fundo, durante a vernissage da exposição Hassis Diários Afetivos. Texto sobreposto à imagem: "Hassis: Diários Afetivos - a exposição no Instituto Collaço Paulo".

Exposição Hassis: Diários Afetivos, no Instituto Collaço Paulo

Nós achávamos que conhecíamos o Hassis razoavelmente bem. Aí entramos na exposição Hassis: Diários Afetivos, no Instituto Collaço Paulo, e demos de cara com pinturas que nunca tínhamos visto. Foi quase como conhecer um novo Hassis, cem anos depois do nascimento dele.

Estivemos lá na vernissage, a convite da casa, e saímos com a impressão de ter entendido algo sobre o instituto que anos frequentando o lugar não tinham nos dado. Todas as mostras de lá saem da Coleção Collaço Paulo, isso não é segredo para ninguém. A diferença desta é que essa é quase a sementinha de onde a coleção nasceu, e quem plantou foi o próprio Hassis, tio do colecionador Marcelo Collaço Paulo.

Nas próximas linhas contamos o que vimos nas salas, as histórias que o Marcelo nos contou sobre o tio na noite de abertura, quem foi Hassis para quem ainda não o conhece, e o que você precisa saber para programar a visita antes que a mostra saia de cartaz.

O que é a exposição Hassis: Diários Afetivos

Hassis: Diários Afetivos é uma exposição temporária do Instituto Collaço Paulo, em Coqueiros, com curadoria de Alice Viana Bononi. Reúne 44 obras do pintor catarinense Hassis pertencentes à Coleção Collaço Paulo, tem entrada gratuita e fica em cartaz até 31 de outubro de 2026.

A abertura, no dia 29 de julho, caiu em cima de duas datas. A mostra faz parte do programa que celebra o centenário de nascimento do artista ao longo de 2026, e o instituto completava quatro anos de funcionamento no dia seguinte. Foi a primeira exposição assinada por Alice Bononi desde que ela assumiu a curadoria da casa, no começo do ano, e a formação dela como arquiteta e teórica das artes visuais se nota na maneira como as obras foram distribuídas pelo espaço.

Algo que o instituto faz sempre e que continua fazendo diferença: as salas foram reorganizadas para receber a mostra e as paredes, repintadas para valorizar as pinturas. Parece um simples detalhe, mas não é. Uma cor errada atrás de uma tela pode apagar completamente uma obra, e por lá ninguém deixa isso ao acaso.

Quem foi Hassis?

Hassis é o nome com que Hiedy de Assis Corrêa assinou suas obras, e ele fez bastante coisa: pintou, desenhou, ilustrou e foi um dos precursores da videoarte em Santa Catarina. Nasceu em Curitiba, em 1926, e foi levado para Florianópolis antes de completar dois anos e meio. Morreu na Ilha, em 2001, depois de uma vida inteira pintando a cidade que o adotou.

Nunca frequentou escola de arte, mas isso não o impediu de ficar no centro do modernismo catarinense. Participou do Grupo Sul e do Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis, e teve atuação forte na Associação Catarinense de Artistas Plásticos. O que ele pintava estava do lado de fora das janelas: a ponte Hercílio Luz, o porto, o carnaval, o circo, a cidade trocando de cara. Em “Vento Sul e Chuva”, de 1957, conseguiu pintar o vento, que é a tela mais lembrada da produção dele.

O tio que plantou uma coleção sem querer

Ainda menino, Marcelo Collaço Paulo aparecia no ateliê que o tio mantinha em Itaguaçu com uma frequência que Hassis retribuiu do jeito que sabia: dando quadros. O primeiro deles está logo na entrada da exposição, num painel que mistura obras e fotografias de família.

Na vernissage, o Marcelo nos contou algumas dessas histórias pessoalmente, com a solicitude de sempre. Falou do convívio com o tio e do que estava por trás de peças específicas, entre elas um armário que Hassis decorou, e que você passa a olhar de outro jeito depois de ouvir a história. Essa camada não cabe em ficha técnica nenhuma. É ela que dá nome à mostra.

As vernissages do instituto valem a ida por si só, aliás. Juntam gente que gosta de arte, profissionais da área ou não, e funcionam como ponto de reencontro de quem circula por esse meio em Florianópolis.

A coleção que nasceu daqueles presentes foi construída ao longo de cerca de quatro décadas por Marcelo e Jeanine Gondin Paulo, e é dela que sai praticamente tudo o que o instituto expõe. Diários Afetivos volta ao ponto de partida e mostra as obras que iniciaram essa história, algumas ainda vindas direto das mãos do tio. “Bar II”, acrílico sobre duratex de 1973, é uma delas: um casal num balcão de bar, ela abraçada nele, que é marinheiro, numa cena que poderia ter acontecido em qualquer noite de Florianópolis daquela década.

O que vimos nas salas

São 44 obras produzidas ao longo de quase trinta anos, das mais antigas, do fim da década de 1950, às mais recentes, já nos anos 1980. Hassis trabalhou com o que tinha à mão: óleo, acrílica, guache, aquarela e até lápis de cera, sobre tela e também sobre eucatex e duratex, que são chapas de fibra de madeira muito usadas como suporte naquele tempo. Há ainda um objeto (um armário) e dois curtas em Super-8 filmados por ele, que somados às pinturas fecham a conta em 46 itens.

Os filmes são a surpresa que ninguém espera. Mostram cenas domésticas e a praia de Itaguaçu, revelam um Hassis antenado nas novas linguagens da arte: apontava a câmera para a própria rotina para guardar aquilo para o futuro, sabendo que à sua frente estava algo que, algum tempo depois, já seria completamente diferente.

A primeira sala apresenta a exposição. As quatro seguintes organizam as pinturas por assunto:

  • Cenas Urbanas: a Florianópolis que ele via da rua;
  • O Porto e seus Personagens: o trabalho, os barcos e a gente do cais;
  • A Orla e seus Motivos: o mar, a praia, a paisagem da Ilha;
  • Ritos e Espetáculos: o circo, o carnaval, o boi-de-mamão, as festas populares.

O autorretrato que ele pintou a óleo em 1967, aos 41 anos, é um dos trabalhos muito bons que vimos lá. Ao longo de todo o percurso, a curadoria intercala as obras com lembranças de Leilah Corrêa Vieira e Luciana Paulo Corrêa, filhas do artista, e é o que dá às salas uma camada familiar que retrospectivas comuns não conseguem ter.

Voltando ao que mais nos surpreendeu: as obras que não conhecíamos não estavam ali como uma mera curiosidade de fundo de acervo. Várias sustentam o percurso inteiro. Quem acha que já conhece a produção de Hassis por ter visto as pinturas que circulam lá e cá provavelmente vai sair de lá com a mesma sensação que tivemos.

Análise da exposição

Mesmo sendo um artista de amplas aptidões, Hassis é essencialmente um pintor, um artista da cor, do movimento, do gesto. As cores que ele carrega nas telas também caminham pelas paredes do espaço e expandem o colorido do quadro para o ambiente. Nem toda exposição comporta bem esse recurso, que às vezes acaba competindo com as obras, mas aqui ele funciona.

Não dá para colocar o artista numa caixinha, categorizando seu estilo, seu modo de fazer ou seus interesses. Mesmo neste recorte que é a exposição, não há apenas um Hassis, mas um artista que não se contenta com uma receita pronta. Trabalhos carregados de elementos e turbulência caminham ao lado de telas em que o vazio e o silêncio são protagonistas. Às vezes esse conflito aparece na mesma obra: sob um céu tranquilo e monocromático, pode ocorrer um duelo de vibrações entre luzes coloridas e sombras negras. Ainda assim, não tome isto como uma análise da exposição, porque não há como guardar Hassis em uma gaveta.

Os materiais, dos mais modestos e cotidianos, apontam para um artista que usa o que tem à frente, do papel kraft ao eucatex, incluindo um armário de cozinha. Neste caso, cabe ressaltar que a apresentação das obras desta coleção é muito bem cuidada, com molduras e outros recursos que valorizam os trabalhos.

Mas o que Hassis pinta? Também é muita coisa, e nestes trabalhos o que parece encantá-lo é o cotidiano, a vida acontecendo: cenas urbanas, o mar, as festas e toda a magia que Florianópolis carrega. Há inclusive desenhos, como um croqui da antiga estação rodoviária, com ônibus e pessoas se deslocando para suas atividades. O olho atento funciona como uma lente que captura, e o gesto rápido das mãos revela as imagens. Muitas cenas parecem recortes desse olho fotográfico, fragmentos da realidade que nos provocam a imaginar o que estava ao redor.

Neste ato de sintetizar a forma, se manifesta outro traço de Hassis. Seus gestos amplos revelam um artista confiante, capaz de representar uma pessoa em poucas pinceladas, um dos maiores desafios de quem pinta. Foi também a ambição de Van Gogh, quando escreveu a Theo: “… pois o que eu procuro é que com alguns traços, a figura de homem, de mulher, de criança, de cavalo, de cachorro, tenha cabeça, corpo, pernas, braços, que combine” (carta 542 a Theo, setembro de 1888).

Um giro pela exposição Hassis: Diários Afetivos

Gravamos um pouco do que vimos nas salas do Instituto Collaço Paulo, para quem quer ter uma ideia de como a mostra está montada.

O que mais acontece em torno da mostra

Diários Afetivos é uma exposição que não está sozinha. Ela faz parte das celebrações do centenário de Hassis, que ocupam várias instituições de Florianópolis ao longo de 2026, e o instituto se combinou com a Fundação Hassis para criar o Circuito Casadinho: as duas mostras, a de lá e a daqui, num programa só. Funciona às quartas e sextas, das 14h às 17h, mediante agendamento, e é gratuito. Serve para escolas e para quem quiser ir por conta própria.

Há também uma conversa marcada para 19 de agosto de 2026, às 16h30, no instituto, com Leilah Corrêa Vieira, Marcelo Collaço Paulo e Luciana Paulo Corrêa falando sobre as obras, o convívio e o temperamento do artista. Se você puder ouvir o Marcelo contando essas histórias, aproveite. É gratuito, como o resto da programação, e a agenda completa fica no site do Instituto Collaço Paulo.

Horário, endereço e como visitar

O que: exposição Hassis: Diários Afetivos, com curadoria de Alice Viana Bononi.

Quando: até 31 de outubro de 2026, de segunda a sábado, das 13h às 18h30.

Onde: Instituto Collaço Paulo, Centro de Arte e Educação, rua Des. Pedro Silva, 2.568, bairro Coqueiros, Florianópolis (SC).

Quanto: gratuito.

Telefone: (48) 3025-4058.

Coqueiros fica na parte continental de Florianópolis, a poucos minutos do centro pela ponte, e o instituto está na rua principal. Reserve entre quarenta minutos e uma hora e meia, dependendo de quanto tempo você costuma passar diante de cada obra. Se for com crianças, o Circuito Casadinho com a Fundação Hassis rende bem mais que uma visita solta.

Perguntas frequentes sobre a exposição Hassis: Diários Afetivos

Reuni aqui as principais informações para você.

O que é a exposição Hassis: Diários Afetivos?

É uma exposição temporária no Instituto Collaço Paulo, em Florianópolis, com curadoria de Alice Viana Bononi. Reúne 44 obras de Hassis pertencentes à Coleção Collaço Paulo que quase documenta como essa coleção começou, a partir de quadros que o artista deu de presente ao sobrinho, o colecionador Marcelo Collaço Paulo.

Até quando a exposição fica em cartaz?

Até 31 de outubro de 2026. A visitação acontece de segunda a sábado, das 13h às 18h30.

A entrada é gratuita?

Sim. A exposição Hassis: Diários Afetivos tem entrada gratuita, assim como toda a programação do Instituto Collaço Paulo.

Quantas obras tem a exposição?

São 44 obras, entre pinturas e um objeto, mais dois curtas em Super-8 filmados pelo próprio Hassis, o que dá 46 itens expostos ao todo.

Onde fica o Instituto Collaço Paulo?

Na rua Des. Pedro Silva, 2.568, bairro Coqueiros, na parte continental de Florianópolis, a poucos minutos do centro da cidade.

Qual a relação entre Hassis e o Instituto Collaço Paulo?

Hassis era tio de Marcelo Collaço Paulo, colecionador que formou a Coleção Collaço Paulo, acervo que deu origem ao instituto. O sobrinho frequentava o ateliê do tio em Itaguaçu e ganhou dele as primeiras obras da coleção.

Uma coleção contando de onde veio

Diários Afetivos faz o que mostras de acervo raramente fazem: volta ao começo de tudo e mostra a origem da coleção que sustenta a casa. No caso, um tio que dava quadros de presente a um sobrinho curioso. Saímos de lá tendo visto Hassis que não conhecíamos e entendendo melhor de onde veio tudo o que já tínhamos visto no instituto nos últimos anos.

A mostra vai até 31 de outubro, e ainda dá tempo de você ir. Depois disso, as obras voltam para o depósito onde o acervo fica guardado, e a próxima mostra ocupa as salas, como sempre acontece por lá.

Você já viu alguma obra de Hassis pessoalmente? Qual foi?

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