Autorretrato de Alfredo Andersen emoldurado em dourado na parede cinza do Museu Casa Alfredo Andersen, o pintor de boina, óculos e barba branca em tons terrosos de óleo, com o texto sobreposto "Alfredo Andersen, quem foi o pai da pintura paranaense" à esquerda.

Alfredo Andersen: quem foi o pai da pintura paranaense

Se você mora no sul do Brasil e nunca ouviu falar de Alfredo Andersen, agora é a hora de resolvermos esse problema. Veja bem, não há como falar de arte no Paraná, no sul do Brasil e mesmo no Brasil sem trazer o nome dele à roda de conversa.

Andersen é conhecido como o pai da pintura paranaense, e o título não é só um exagero de placa de museu: foi ele a primeira pessoa a viver da pintura como profissão no estado e o primeiro a estruturar o ensino de arte por lá, formando praticamente toda uma geração de artistas locais. Ele era norueguês de nascimento, chegou ao litoral paranaense no fim do século XIX sem falar uma palavra de português e, mesmo assim, ficou.

Nesse artigo você vai entender de onde ele veio, como foi parar em Paranaguá, que tipo de pintura fazia e por que ganhou o apelido que carrega até hoje.

Quem foi Alfredo Andersen

Alfredo Andersen foi um pintor, desenhista, cenógrafo e professor norueguês que passou a maior parte da vida no Brasil e se tornou a figura central da arte paranaense do início do século XX. Nasceu em Kristiansand, no sul da Noruega, em 3 de novembro de 1860, e morreu em Curitiba em 9 de agosto de 1935. Ele é considerado o primeiro artista a exercer a pintura como profissão no Paraná e também a iniciar o ensino de arte no estado, o que lhe rendeu o apelido de “pai da pintura paranaense”.

O seu nome de batismo era Alfred Emil Andersen. O “Alfredo” veio depois, já no Brasil, e pegou de vez. Segundo a biografia do Museu Casa Alfredo Andersen, ele era o único filho homem entre os cinco do casal Tobias e Hanna Andersen. O pai era capitão da marinha mercante, o que explica em parte como um rapaz do sul da Noruega foi acabar num porto do litoral paranaense.

O que ele deixou em termos de legado não se mede só pelas telas que pintou embora, sinceramente, elas sejam muitas e excelentes. Andersen ensinou, formou pessoas e fez isso num lugar que, quando ele chegou, mal tinha suas ruas com calçamento, quanto mais uma escola de arte.

Da Noruega à América do Sul: a formação de Andersen

Andersen começou cedo na arte. Ele pintou sua primeira tela aos treze anos e, aos dezessete, entrou para a Academia de Belas Artes de Cristiânia, nome antigo de Oslo, onde estudou com Wilhelm Krogh, nome respeitado da pintura norueguesa daquele tempo. Trabalhou como assistente dele por alguns anos antes de seguir para a Dinamarca.

Em Copenhague, frequentou a Real Academia de Belas Artes entre 1879 e 1883, onde depois viria a dar aulas de desenho. Formou-se, voltou a Oslo, teve aulas particulares com outros pintores e, em 1884, realizou sua primeira exposição individual. Já era artista profissional, com mostras em Oslo e Copenhague, quando começou a levar essa coisa de viajar mais a sério.

Essa formação europeia dele é importante por um motivo bem simples: quando Andersen chegou ao Paraná, ele trazia na bagagem um repertório técnico que quase não existia por esses lados. Bom, existia muito pouco disso no Paraná, muito menos de forma sistematizada como ele sabia fazer. Ele sabia compor muito bem retratos, construir paisagens e montar cenários. E, melhor ainda, sabia ensinar tudo isso, o que talvez tenha sido o mais raro para a época.

Cabe aqui um parênteses sobre o pano de fundo disso tudo. As décadas de 1880 e 1890 foram anos de forte nacionalismo romântico na Noruega, um país que saía de séculos sob domínio dinamarquês e sueco e agora procurava a própria identidade. Foi a época de Edvard Grieg na música, de Henrik Ibsen no teatro e do escritor Knut Hamsun, de quem Andersen chegou a ser bem próximo. Esse espírito de olhar para a sua própria terra e para a gente local acompanhou Andersen quando ele cruzou o Atlântico. Ironicamente, ele acabou fazendo pelo Paraná algo parecido com o que aqueles nomes faziam pela Noruega.

Paranaguá antes de Curitiba

Como filho de capitão, claro, Andersen viajava. E não viajava pouco. Em 1889 esteve em Paris cobrindo o Salão Oficial de Belas Artes como jornalista, no ano em que a Torre Eiffel foi inaugurada. Nos anos seguintes, embarcou numa longa viagem pela Europa e pela América que terminaria mudando o rumo da vida dele.

Em 1892, depois de passar pela costa brasileira, Andersen desembarcou no Paraná e fixou residência em Paranaguá. Era um momento bastante tenso do Brasil, com a República recém-proclamada e revoltas como a Revolução Federalista acontecendo no Sul.

Ele ficou cerca de dez anos no litoral, e não foi um período fácil de começar. Ele não sabia português e caía meio que de paraquedas numa cultura que não tinha nada a ver com a escandinava em que ele havia crescido. Mesmo assim, ele seguiu firme e encontrou seu lugar. O sustento dele vinha de dois tipos de trabalho: retratos que ele pintava por encomenda e decorações que fazia para casas da região. Não era aquela vida artística de Copenhague nem de Oslo, mas era trabalho, e era ali que ele estava construindo as suas primeiras raízes brasileiras. Foi em Paranaguá também que conheceu Ana de Oliveira, com quem se casou.

1902: a chegada a Curitiba e a escola que ele fundou

O casamento foi o que fixou Andersen no Brasil de vez. Logo depois, aos 42 anos, ele deixou o litoral e subiu para Curitiba. A cidade que o recebeu, sejamos sinceros, não facilitava a vida de ninguém que quisesse viver de arte. A de ninguém na verdade: haviam poucas ruas pavimentadas, a luz elétrica era deficiente, e a maior parte do transporte era feito à tração animal. Era uma capital em obras, ainda descobrindo o que queria ser.

O primeiro ateliê dele na cidade ficava na então Rua General Deodoro, hoje Marechal Deodoro. Ele até começou bem, já que o ponto não era qualquer um: aquele espaço tinha pertencido a Adolpho Volk, fotógrafo alemão, e foi ali que Andersen retomou o que sabia fazer, ou seja: exposições individuais, participação em mostras coletivas e, principalmente, o ensino de desenho e pintura. Ele tentou até movimentar algo como um mercado de arte na cidade, embora Curitiba ainda estivesse muito atrás dos lugares por onde ele havia passado.

Foi também em Curitiba que essa faceta de professor dele cresceu. Ao longo da década de 1910, já com três filhos, Andersen levou o ensino de desenho para dentro das escolas da cidade. Deu aula na Escola Alemã, no Colégio Paranaense e na Escola de Belas Artes e Indústrias, esta última a primeira instituição do Paraná dedicada a ensinar técnicas artísticas. A essa altura, sua relação com o poder público já era próxima o bastante para lhe render uma encomenda simbólica: o primeiro desenho do brasão do estado saiu das mãos dele.

O ensino, veja bem, não era um bico entre uma tela e outra. Era parte central do que Andersen fazia. Ele defendia que ensinar desenho a operários e a jovens tinha valor para a própria vida da cidade, uma convicção que soava adiantada para a Curitiba daquele tempo. Mas que faz todo sentido.

Que tipo de pintura Andersen fazia

A obra de Andersen se organiza em torno de três temas, divisão que aparece na própria descrição do acervo do museu que leva o nome dele. São eles o retrato, a paisagem e a pintura de gênero, que é o nome que se dá à pinturas que representam o cotidiano, aquelas telas que mostram gente comum fazendo coisas comuns, sem heróis nem grandes acontecimentos.

Nos retratos, e ele fez muitos, por encomenda de autoridades e também de familiares e amigos, o forte de Andersen era o modo como manejava luz e sombra. Ele construía o rosto por contraste, deixando parte na penumbra para dar volume e fazer a figura saltar do fundo, um recurso que os críticos costumam ligar à pintura do norte da Europa, de onde ele vinha. Foi essa habilidade com retratos que o tornou conhecido na sociedade curitibana do início do século.

Nas paisagens é onde essa mudança de continente dele mais aparece. Na Europa, ele pintava em tons mais fechados, muito cinza, aquela luz baixa e fria do norte. Depois de anos no Brasil, isso mudou consideravelmente: as cores clarearam, a pincelada ficou mais espontânea e o resultado passou a beirar o impressionismo, aquela corrente que corre atrás da sensação da luz em vez do desenho travado das formas. Nas paisagens paranaenses dos anos 1920 e 1930, ele pintou os campos e, principalmente, as araucárias, o pinheiro símbolo do estado, banhadas por uma claridade dourada que virou quase sua assinatura. Andersen foi um dos primeiros a olhar para essa árvore com olhos de pintor, o que não é pouca coisa num estado que fez dela um símbolo.

As cenas de gênero mostram o lado mais íntimo dele. A própria família virava assunto de tela, como em “Lavando Roupa”, em que a mulher e uma das filhas aparecem no trabalho de casa, abrigadas por um guarda-sol. “Duas Raças”, de 1930, é outra bastante lembrada. Nesse tipo de trabalho, é o dia a dia que interessa, e Andersen o observava com um olho atento e afetuoso.

Andersen transita com facilidade entre a tradição clássica da academia europeia que se formou, com uma clara abertura para o impressionismo nas paisagens do sul do Brasil. Nada de abstração, nada de vanguarda radical. O que ele oferece é olhar sensível e técnica a serviço do que via pela frente, e é justamente isso que torna a obra dele ao mesmo tempo que é objetiva é carregada de significados e sensibilidade.

O ateliê que virou museu

O casarão da Rua Mateus Leme, onde Andersen se instalou em 1915 e passou os vinte anos seguintes, teve um segundo destino. Depois da morte dele, em 1935, o imóvel foi preservado e acabou convertido em museu, guardando boa parte das obras que ele deixou. É o Museu Casa Alfredo Andersen, que ocupa hoje exatamente o endereço onde ele morou, pintou e deu aula.

Por que Andersen é chamado de “pai da pintura paranaense”

Porque quase todo pintor paranaense da geração seguinte passou, de um jeito ou de outro, pela mão dele. O apelido não é um exagero de placa de museu: é uma descrição razoavelmente literal do que aconteceu.

Antes de Andersen, o Paraná aparecia na pintura quase sempre pelos olhos de quem estava de passagem. Cartógrafos, naturalistas e pintores viajantes cruzavam a província, registravam a paisagem ou os habitantes, e seguiam viagem. Faltava ter um artista que ficasse, que montasse ateliê, que produzisse de forma contínua e vivesse disso ali mesmo. Andersen foi esse artista. Ao se estabelecer primeiro em Paranaguá e depois em Curitiba, ele trocou a lógica do pintor de passagem pela de uma carreira fincada no estado, e essa mudança abriu caminho: outros artistas passaram a enxergar o Paraná como um lugar onde valia a pena ficar.

Quando Andersen chegou, o Paraná não tinha uma escola de pintura estabelecida, nem um circuito artístico, e menos ainda quem ensinasse com o preparo europeu que ele tinha. Ao abrir ateliê e aceitar alunos, ele criou, na prática, o primeiro núcleo de formação de artistas do estado. Vários nomes que se tornariam importantes na arte paranaense passaram por suas mãos, e o próprio museu mantém uma lista dos discípulos de Andersen formados nesse ambiente.

Há uma diferença entre ser um bom pintor num lugar e mudar a arte de um lugar inteiro. Andersen fez a segunda coisa. Ele podia ter se recolhido ao ateliê e cuidado só da própria obra, que já garantiria o nome dele. Mas ele escolheu ensinar, e é por isso que o apelido colou e ficou.

O reconhecimento em vida

Diferente de muitos artistas que, infelizmente, só viram nome de rua depois de mortos, Andersen colheu reconhecimento ainda vivo. E isso é um privilégio e tanto.

Em 1927 ele voltou à Noruega para rever a família e reencontrou o velho professor Wilhelm Krogh. Foi lá que o governo norueguês lhe fez uma oferta e tanto: assumir a direção da Escola de Belas Artes de Oslo. Acredite ou não, ele disse não. Preferiu voltar ao Brasil, para o Paraná, que a essa altura já era a casa dele.

Em 1931, aos 71 anos, a Câmara Municipal de Curitiba lhe concedeu o título de Cidadão Honorário da cidade, pelos serviços prestados à arte do estado. Foi premiado no Salão Nacional de Belas Artes e teve obras reconhecidas dentro e fora do Paraná. O autorretrato que pintou em 1932 entrou para o acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o que diz bastante sobre o alcance que a produção dele já tinha.

O legado de Andersen na arte paranaense

Andersen morreu em 1935, na casa que era seu ateliê, escola e lar ao mesmo tempo. O legado que ele deixou não cabe só nas paredes de um museu.

Do trabalho dele ficou uma geração de artistas formada, que por sua vez formou outras. Também nasceu a ideia de que o Paraná podia, sim, ter arte própria, feita e ensinada localmente, sem depender de que tudo viesse de fora. E principalmente, ficou a obra pessoal dele, os retratos da sociedade curitibana, as marinhas do litoral, as araucárias douradas, que ainda hoje aparecem em acervos e exposições pelo estado.

O nome dele virou instituição no sentido mais concreto da palavra. Quem anda por Curitiba cruza com Andersen muitas vezes sem nem saber. Está nas ruas, no museu, e na linhagem de artistas que ele ajudou a criar.

Perguntas frequentes sobre Alfredo Andersen

Reuni aqui as dúvidas mais comuns sobre o artista, para quem quer uma resposta rápida.

Quem foi Alfredo Andersen?

Foi um pintor, desenhista, cenógrafo e professor norueguês que viveu a maior parte da vida no Brasil. Nascido em Kristiansand, na Noruega, em 1860, fixou-se no Paraná e se tornou a principal figura da arte do estado no início do século XX, conhecido como o “pai da pintura paranaense”. Morreu em Curitiba em 1935.

De onde era Alfredo Andersen?

Ele era norueguês, nascido na cidade de Kristiansand, no sul da Noruega. Filho de um capitão da marinha mercante, formou-se artisticamente na Noruega e na Dinamarca antes de emigrar para o Brasil, onde adotou o país como seu e viveu por mais de quatro décadas.

Por que Alfredo Andersen é chamado de pai da pintura paranaense?

Porque foi ele quem formou a primeira geração de pintores do Paraná. Ao chegar a um estado sem escola de arte estabelecida, abriu ateliê, aceitou alunos e ensinou desenho e pintura com o preparo técnico que trazia da Europa. Boa parte dos artistas paranaenses seguintes passou pela orientação dele.

Que tipo de pintura Alfredo Andersen fazia?

Andersen foi um pintor de retratos, paisagens e cenas de gênero, dentro de uma linguagem figurativa herdada da formação europeia. Nos retratos, apostava no contraste de luz e sombra; nas paisagens, sobretudo as dos campos e araucárias do Paraná, clareou a paleta e se aproximou do impressionismo, com muita atenção à luz.

Quem foram os discípulos de Alfredo Andersen?

Andersen orientou vários artistas que se tornariam nomes da arte paranaense, formados no ateliê-escola que ele manteve em Curitiba. A lista completa de discípulos é mantida e documentada pelo próprio Museu Casa Alfredo Andersen.

Um norueguês que o Paraná adotou

Alfredo Andersen podia ter sido apenas um bom pintor europeu que passou pelo Brasil e seguiu adiante. Mas não, escolheu ficar, ensinar e plantar arte num lugar que ainda não tinha a sua. É por isso que ele não é lembrado só como um artista competente, e sim como o começo de uma história inteira.

Você conhecia a obra de Alfredo Andersen, ou o nome dele chegou até você antes das telas?

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