Cabeçalho do artigo com o título "Exposição Obsolescência de Marta Facco" e o subtítulo "conheça um pouco mais da mostra que ressignifica objetos de descarte" em branco sobre fundo em degradê do preto ao cinza claro, com o logo em pino do Onde Ver Arte no canto superior esquerdo. À direita, uma das pinturas a óleo da exposição retrata uma pilha de móveis e objetos descartados numa calçada de pedras portuguesas: uma cadeira de madeira tombada, um carrinho de mão enferrujado, trouxas de tecido nas cores roxo, vermelho e verde amontoadas por cima, e uma vara de madeira encostada ao fundo, tudo em tons terrosos contra uma parede cinza.

Exposição Obsolescência de Marta Facco: o que você vai ver na Alesc

A exposição Obsolescência, de Marta Facco, parte de uma pergunta que se encaixa muito bem na arte mas, também, no nosso dia a dia: quando exatamente um objeto deixa de se tornar útil? A resposta nem sempre vai ser “quando ele quebra de vez”.

É o exato intervalo entre um objeto ainda funcionar e passar a não interessar mais a alguém que ela transformou em pinturas, que estão sendo exibidas na Alesc, em Florianópolis, até o dia 3 de setembro. No entanto, os questionamentos que as obras nos trazem vão muito além da utilidade pura e simples dos objetos. Elas migram, inclusive, para as relações interpessoais de hoje em dia.

Estivemos na vernissage e pudemos não apenas conversar com a Marta, como ver essas obras mais de perto. Eu, inclusive, reconheci uma das telas, que ela havia levado à Udesc na época em que fizemos estágio juntos na pós-graduação em Artes.

Neste artigo eu vou te falar sobre o que a mostra reúne, como o processo dela funciona e onde fica o espaço na Alesc, para você visitar antes que as telas saiam de cartaz.

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O que é a exposição Obsolescência, de Marta Facco

A exposição Obsolescência, de Marta Facco, reúne 14 pinturas ao total. As obras são realizadas em técnica mista, com predominância da pintura a óleo.  Ali na galeria elas estão espalhadas por nove painéis brancos.

Cada tela parte do mesmo ponto: um objeto que, em algum momento, alguém decidiu que não era mais útil. Pode ser uma cadeira, um armário, aqueles tipos de móveis que com certeza você já viu descartados no meio-fio de alguma calçada esperando o caminhão de lixo. São tão comuns que costumamos nem prestar mais atenção neles. Mas aqui, são ressignificados.

Os painéis foram organizados para criar uma espécie de percurso contínuo pela sala, circular. Recomendo que você faça o percurso completo uma vez, e então volte para olhar com mais atenção.

Quem é Marta Facco

Marta Facco é pós-doutora em Pintura pela CIEBA/FBAUL/ULisboa, em Lisboa, e doutora em Artes Visuais pela Udesc, a Universidade do Estado de Santa Catarina. Também é professora efetiva de Arte na educação básica catarinense.

Conheço a Marta desde a Udesc: fomos colegas de mestrado e, mais tarde, do estágio de docência do doutorado. Acompanho o trabalho dela desde essa época, inclusive tive contato direto com uma das peças que estão na mostra. O interesse por objetos e descarte não é novidade nessa trajetória, é um tema recorrente que atravessa boa parte do que ela produz.

O processo por trás das telas

O que sustenta esse trabalho todo não é apenas o tema que ela aborda, mas seu método, digamos assim. Marta não apenas tem o hábito de fotografar esses descartes, como criou quase uma comunidade em torno disso: amigos seus enviam fotos para ela, de diversos lugares do mundo.

Nas telas, ela não faz uma simples cópia direta dessas fotos. Ela pega essa base e transforma em outra coisa, mexendo na composição inteira. Então você não vê só tinta ali. Tem partes deslocadas, recortes do que lhe interessa, detalhes ampliados, aplicações. Então o resultado final nem sempre é algo que ela realmente viu, mas sim, uma transformação disso em outra linguagem.

Olhando de perto você vê cuidado nos detalhes, como um risco em uma madeira, uma mancha com cara de antiga, um canto gasto de um estofado cor de rosa. É como se a tinta a óleo guardasse um tempo que aquele objeto já perdeu. O tempo em que ele foi usado até não servir pra mais nada. E, bem, há uma certa ironia nisso, pois dá a impressão de que quanto mais desgastado o objeto na cena original, mais ele ganha espaço na pintura. Aquele descarte acaba se tornando, ali naquela tela, quase o contrário do esquecimento.

Isso não é só mais uma crítica vazia ao consumismo, nada de discurso clichê sobre sustentabilidade. É também uma pergunta que pode se estender às nossas relações: o quanto delas tem se tornado descartável como estes objetos?

Uma leitura de quem acompanha o trabalho dela

As pinturas de Marta Facco eu conheço de longa data e, por isso mesmo, já sabia o que encontraria ao receber seu convite. Aprecio seu trabalho por vários motivos, a começar pela elegância das pinceladas, em que a fatura da artista se faz presente: ela não esconde a marca do pincel na tela, mas a apresenta com clareza. E mesmo com toda a riqueza de detalhes, as pinturas nunca abrem mão da expressão pessoal. Pinceladas firmes e movimentos amplos revelam alguém confiante no que faz, enquanto a mesma mão, logo adiante, delineia linhas de contorno finas e constantes. Alguns elementos aparecem bem definidos, mostrando controle; outros, nas pinceladas e nas texturas, seguem carregados de energia.

É justamente essa ambiguidade que inquieta e afasta qualquer monotonia, e ela reaparece num segundo contraste, agora entre o tema e a própria pintura. A beleza, o colorido e a apresentação limpa e organizada da coleção nada têm a ver com aquilo que retratam: lugares de abandono, sujeira, mofo e mau cheiro. Está aí o encanto e a provocação de fazer com que algo repulsivo em seu estado natural se torne agradável aos olhos, como faz Rembrandt (1606–1669) em “Boi Dissecado”, de 1655, quando a carcaça de um animal se converte em bela pintura e o objeto passa a ser apenas pretexto para explorar o jogo de cores, luzes e transparências. E não por acaso o próprio Boi de Rembrandt vive entre a natureza-morta e a cena de gênero – o mesmo entre-lugar onde Marta se instala.

Seriam, então, as pinturas de Marta paisagens ou naturezas-mortas? Tanto faz, pois trazem os dois gêneros ao mesmo tempo. A natureza-morta sempre foi pintura de objetos, frutas e outros elementos carregados de simbolismo, um ótimo campo para o exercício criativo e técnico. E quantos significados esses objetos guardam: o tempo que passa, a durabilidade das coisas e de nós mesmos, e ainda o descarte. Mas é também paisagem, e é aí que mora certa ironia. A paisagem que a tradição nos ensinou a esperar é bela e graciosa, o lugar onde a natureza revela todo o seu encanto, ao passo que o que Marta nos dá são, infelizmente, lugares reais de abandono, não cenários montados como nas antigas naturezas-mortas, mas objetos largados sem nenhuma pretensão artística que só aqui ganham novo significado.

Há ainda detalhes que merecem atenção, como as colagens de elementos em certas partes da tela, quase imperceptíveis e, ainda assim, atraentes. É aqui que reconheço, de forma sutil, os combines de Robert Rauschenberg (1925–2008), com elementos externos que se incorporam à pintura, embora sem a extravagância própria do seu estilo. Haveria muito mais a dizer, mas o que vejo nas telas de Marta é mais do que a reprodução de fotografias, e é nesse algo a mais que sua arte começa. No fim, é isso que distingue um artista: as referências que carrega. E que referências… de Rembrandt a Rauschenberg, até chegar a Marta Facco.

Um giro pela exposição Obsolescência

Gravamos um giro pela mostra na noite de abertura, com um trecho da própria Marta Facco falando sobre o processo por trás das pinturas. Você vai poder ter um gostinho do que há na exposição mas, por motivos óbvios, recomendamos a visita pessoalmente, sempre.

Seis propostas selecionadas por edital: como a mostra chegou à Alesc

Obsolescência entrou na programação da Galeria Ernesto Meyer Filho pelo Concurso Artístico de Seleção de Projetos para Ocupação Artística, o edital que a Gerência Cultural da Alesc abre todo início de ano. Na edição de 2026, foram escolhidas seis propostas de artes visuais, entre pintura, escultura, desenho, gravura, cerâmica, fotografia, vídeo e instalação.

Qualquer artista brasileiro ou estrangeiro que esteja em situação regular no país pode participar. Isso explica bem a variedade de nomes e propostas que podemos ver na galeria todos os anos.

Onde fica a Galeria Ernesto Meyer Filho

A Galeria de Arte Ernesto Meyer Filho fica no saguão do Palácio Barriga Verde, sede da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, na Rua Doutor Jorge Luz Fontes, 310, no Centro de Florianópolis. Fica bem de frente para o Plenário Osni Régis também.

A visitação é gratuita e acontece de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, dentro do horário de expediente da Alesc. A exposição Obsolescência fica em cartaz até 3 de setembro, então corre que ainda dá tempo.

Perguntas frequentes sobre a exposição Obsolescência

Separei aqui perguntas que podem surgir sobre a exposição e que já servem se resumo rápido.

O que é a exposição Obsolescência, de Marta Facco?

É uma mostra individual da artista Marta Facco na Galeria Ernesto Meyer Filho, na Alesc, com 14 pinturas em óleo sobre tela, madeira, papel e técnica mista, distribuídas em nove painéis. As obras partem de objetos descartados nas ruas do mundo todo, não só de Florianópolis.

Onde fica a Galeria Ernesto Meyer Filho?

Fica no saguão do Palácio Barriga Verde, sede da Alesc, na Rua Doutor Jorge Luz Fontes, 310, Centro, Florianópolis.

Até quando fica em cartaz a exposição Obsolescência?

A mostra ficou em cartaz de 20 de agosto a 3 de setembro – ou seja, está quase acabando e, dependendo de quando você ver esse artigo, pode já ter terminado. Exposições na Galeria Ernesto Meyer Filho costumam ter esse prazo curto mesmo, então é comum ver sempre novas exposições ali.

A entrada é gratuita?

Sim. A visitação é gratuita, de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, dentro do horário de expediente da Assembleia Legislativa.

Quem é Marta Facco?

É artista visual, pós-doutora em Pintura pela CIEBA/FBAUL/ULisboa e doutora em Artes Visuais pela Udesc. Também dá aula de Arte na educação básica catarinense.

Por que a exposição se chama Obsolescência?

Porque o trabalho parte de objetos do cotidiano que são descartados antes mesmo de se deteriorarem por completo. A pintura funciona como uma forma de dar a esses objetos outro tipo de permanência e levanta questões que chegam até nossas relações pessoais.

Uma pintura contra o esquecimento dos objetos – mas não só isso

A Exposição Obsolescência não precisa de nenhum discurso grandioso sobre consumo para funcionar. Basta olhar para as telas com um olhar atento e reconhecer objetos que você já deve ter visto aqui e ali. Mas, nesse caso, alguém decidiu que eles mereciam ser eternizados como forma de nos levar a pensar para além do consumo puro e simples.

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