Pintura a óleo de Marta Facco, em moldura fina de madeira alaranjada, pendurada numa parede creme. A tela mostra móveis descartados sobre a grama, junto a uma cerca de tela de arame. São duas cadeiras de metal brancas com o assento desgastado, um assento escuro de cadeira de escritório, bases metálicas de cadeiras de escritório com pistão e um contêiner de lixo laranja com marcas brancas na lateral. Ao fundo, vegetação verde densa e troncos de árvore; em primeiro plano, chão de cascalho claro. Do lado direito, o texto: "Marta Facco: quem é a pintora das cadeiras e dos objetos descartados", e o logotipo do Onde Ver Arte no canto superior.

Marta Facco: quem é a pintora das cadeiras e dos objetos descartados

Na vernissage de Obsolescência, exposição da pintora Marta Facco na Alesc, o Marco, meu marido, reconheceu uma das telas. Ele já tinha visto aquela pintura anos antes, quando a Marta a levou para a Udesc, no período em que os dois fizeram juntos o estágio de docência na pós-graduação.

Quem passou pela mostra viu colchões, armários e cadeiras largados na calçada, transformados em pintura a óleo. Só que o interesse dela por objetos domésticos vem de bem antes dessa exposição, e a cadeira, em especial, reaparece em momentos diferentes da produção da Marta.

Neste artigo eu conto quem é Marta Facco, onde ela estudou, como a sala de aula entra na pesquisa dela, o que ela pinta e em algumas das exposições e obras dela que já aconteceram.

Quem é Marta Facco?

Marta Facco é artista visual e professora de Arte, radicada em Florianópolis, onde tem ateliê na Lagoa da Conceição. Ela pinta a óleo, principalmente, e os objetos domésticos são assuntos recorrentes nas telas dela, das cadeiras aos móveis que alguém deixou na rua. É doutora em Artes Visuais pela Udesc e pós-doutora em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Em 2026, ela apresentou Obsolescência, exposição individual que reuniu 14 pinturas suas na galeria de arte da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Antes disso, ela já tinha participado de duas exposições coletivas no MASC (Museu de Arte de Santa Catarina).

Formação: da UFSM a Lisboa

A sua base acadêmica veio do Rio Grande do Sul. Marta se formou em 2001 no bacharelado em Desenho e Plástica da Universidade Federal de Santa Maria, a UFSM. Também é licenciada em Artes Visuais pelo Claretiano.

Em Florianópolis, fez mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Udesc, a Universidade do Estado de Santa Catarina. O mestrado foi defendido em junho de 2018 e o doutorado, concluído em 2022. Foi nesses anos de Udesc que o Marco a conheceu: os dois foram colegas de pós-graduação e, depois, do estágio de docência do doutorado.

O passo seguinte foi Portugal. Com bolsa do CNPq, ela fez o pós-doutorado na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) e foi pesquisadora visitante do CIEBA, o centro de pesquisa em belas-artes da instituição, segundo a biografia publicada pela Revista Apotheke. Em abril e maio de 2023, a programação da própria FBAUL lista a “Dra. Marta Facco” entre os convidados de uma série de workshops de pintura e de uma conversa sobre arte e tecnologia no processo de criação.

No mesmo ano, ela assinou em coautoria duas entrevistas com artistas que dão aula na FBAUL, Diana Costa e Rui Serra, publicadas na Revista Apotheke.

Artista e professora: a pesquisa de Marta Facco

Boa parte da pesquisa acadêmica de Marta gira em torno de uma figura que tem nome próprio na área de artes visuais: o artista professor. Traduzindo, é quem pinta e ensina, e encara as duas atividades como partes do mesmo ofício, em vez de tratar a sala de aula como o bico que paga as tintas.

Nos artigos que ela publicou, o ateliê é tratado como lugar de aprendizado, onde pintura se ensina e se aprende. Vários desses textos foram escritos em parceria com Jociele Lampert, professora da Udesc que coordena o Estúdio de Pintura Apotheke, projeto de pesquisa e extensão ligado ao CNPq do qual Marta faz parte. Ela também integra o grupo de pesquisa Entre Paisagens.

Além da pesquisa acadêmica, há a sala de aula. Marta é professora efetiva de Arte na educação básica de Santa Catarina e, como informa a Assembleia Legislativa, orienta quem quer estudar cor ou desenvolver projetos próprios de pintura e desenho.

O que Marta Facco pinta

O assunto dela mora dentro de casa e, de vez em quando, na calçada em frente dela.

A cadeira como objeto de pesquisa

A cadeira aparece cedo nos registros que eu encontrei da produção dela. Em 2017, Marta publicou na Revista Apotheke, da Udesc, um trabalho chamado Cadeira: um objeto epistêmico em processo, feito para uma disciplina da pós-graduação intitulada “Sobre Ser Artista Professor”. Epistêmico é o que diz respeito ao conhecimento. O título, portanto, anuncia a cadeira como coisa a ser investigada, além de coisa a ser pintada.

O mesmo objeto também dá nome a uma tela anunciada pela galeria Solar do Rosário, de Curitiba: Cadeira II, óleo sobre tela de 116 x 64 centímetros, que a galeria classifica como figurativa.

Poucas coisas são tão banais quanto uma cadeira: todo mundo tem uma em casa e quase ninguém para pra olhar para ela.

Dos móveis da casa aos descartes da rua

Em Obsolescência, a cadeira divide espaço com outros objetos de que alguém se desfez. Nas telas aparecem colchões, armários, tecidos, sacos e restos de madeira deixados ao relento. São 14 pinturas a óleo e em técnica mista, que nós pudemos ver de perto na vernissage da exposição, em agosto de 2026.

O texto de divulgação da Alesc situa a mostra dentro de uma pesquisa mais longa da artista, voltada ao ambiente doméstico e às lembranças que os objetos da casa carregam. Além disso, um detalhe que já contamos por aqui ajuda a entender a escala desse trabalho: amigos mandam para ela fotos de descartes encontrados em vários lugares do mundo, e não só em Florianópolis.

Como funciona o processo de Marta Facco

O ponto de partida são fotografias, e o ponto de chegada são pinturas que não copiam essas fotos.

As fotos registram os objetos num momento bem específico: largados na rua, sem função, mas ainda com as marcas de uso de quem os teve. Na hora de pintar, a Marta reorganiza as cenas: muda partes de lugar, aproxima o que interessa, corta trechos e elimina o que sobra. O que importa para ela é o estado físico das coisas, como os tecidos dobrados, as madeiras com rachaduras, as manchas e as superfícies gastas pelo uso.

A tinta, por sua vez, acompanha essa ideia. A artista trabalha com veladuras (camadas finas e translúcidas de tinta, que deixam ver o que está por baixo), apaga trechos das imagens e acumula uma camada sobre a outra, de modo que a própria superfície das telas fica com cara de desgaste.

No artigo da exposição, o Marco, que também é pintor, chamou atenção para dois detalhes que só aparecem se você olhar no detalhe: a marca do pincel, que ela deixa à mostra na tela, e pequenas colagens quase imperceptíveis em algumas obras.

Exposições de Marta Facco

Eu encontrei registros oficiais de três exposições recentes com obras dela, todas em Florianópolis:

  • 2019, Fronteiras em Aberto: coletiva da sede catarinense da 14ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba, montada no MASC, que fica dentro do CIC. Os artistas foram selecionados por chamada aberta, e a mostra ficou em cartaz de 28 de setembro a 1º de dezembro de 2019.
  • 2019 a 2020, A Permanência da Pintura: coletiva também no MASC, organizada por Susana Bianchini, que reuniu onze artistas com pesquisas diferentes em pintura. Ficou aberta de 18 de dezembro de 2019 a 26 de janeiro de 2020.
  • 2026, Obsolescência: individual na Galeria de Arte Ernesto Meyer Filho, no saguão da Alesc, selecionada por edital e exibida de 20 de agosto a 3 de setembro.

Além dessas, a própria artista menciona exposições em outros estados e premiações em salões de arte.

Perguntas frequentes sobre Marta Facco

Separei as perguntas que mais aparecem sobre a pintora.

Quem é Marta Facco?

Marta Facco é artista visual e professora de Arte radicada em Florianópolis. É doutora em Artes Visuais pela Udesc e pós-doutora em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Pinta objetos domésticos, como cadeiras e móveis descartados.

Que técnica Marta Facco usa?

Ela trabalha com pintura a óleo sobre tela, e também com técnica mista. As obras de Obsolescência, por exemplo, partem de fotografias, que ela recompõe na pintura em vez de copiar.

Por que Marta Facco pinta cadeiras?

A cadeira é um objeto que ela investiga desde pelo menos 2017, quando publicou Cadeira: um objeto epistêmico em processo na Revista Apotheke. Na obra dela, o objeto aparece como tema de estudo, ligado à pesquisa sobre a casa e os objetos que a ocupam.

Quais exposições Marta Facco já fez?

Entre as exposições com registro oficial estão Fronteiras em Aberto (2019) e A Permanência da Pintura (2019 a 2020), ambas no MASC, e a individual Obsolescência (2026), na Alesc.

Marta Facco dá aulas de pintura?

Sim. Ela é professora efetiva de Arte na educação básica de Santa Catarina e também orienta estudos de cor e projetos de quem quer se aprofundar em pintura e desenho.

Uma cadeira na calçada

Depois de conhecer o trabalho da Marta, fica bem mais difícil passar por um móvel largado na calçada sem pensar um pouco mais nele.

A própria artista, no texto de divulgação da mostra, liga esses descartes ao ritmo da vida contemporânea, inclusive ao modo como nos relacionamos uns com os outros. Faz todo sentido. Trocamos de celular antes de ele estragar, deslizamos a tela por dezenas de vídeos, notícias e conversas em poucos minutos e esquecemos boa parte disso antes do fim do dia. Com tanta coisa chegando de uma vez, e tão depressa, sobra pouco tempo para olhar qualquer uma delas com atenção, seja um objeto, seja uma pessoa.

As pinturas da Marta fazem o caminho inverso. Ela para diante do que alguém jogou fora, fotografa, leva a cena para o ateliê e constrói a imagem em camadas de tinta a óleo, um material que demora a secar e não aceita pressa. O que foi descartado em segundos vira uma tela que agora pode ser olhada devagar, e talvez seja esse o convite mais interessante da obra dela.

E você, já parou para olhar com atenção algum objeto deixado na rua? Ou também anda passando rápido demais por eles?

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