Instalação de fios vermelhos entrelaçados de Chiharu Shiota no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, obra que integra a 16ª Bienal Internacional de Curitiba, com formas de papel dobrado suspensas entre os fios e pequenos pontos de luz ao fundo. Sobreposto à imagem, o texto 'Chiharu Shiota: quem é a artista japonesa das instalações com fios'.

Chiharu Shiota: quem é a artista japonesa das instalações com fios

Chiharu Shiota é um daqueles nomes que se ouve muito quando o assunto é instalação contemporânea. O principal motivo é, principalmente, visual: ela costuma povoar salas inteiras com redes de fios, quase sempre vermelhos ou pretos, nos quais costumam estar presos objetos comuns como chaves, sapatos, cadeiras, cartas. Muita gente lembra dos trabalhos depois de ver, mas nem sempre ligam a ela. No entanto, são emblemáticos, não dá pra negar.

A obra dela foi construída ao longo de mais de trinta anos entre o Japão, a Austrália e a Alemanha, país onde ela vive desde a segunda metade da década de 1990 (alguns lugares citam 1996, outras 1997 para o ano exato da mudança, então vamos arredondar, certo?). Nesse artigo eu reuni as principais informações sobre quem é a Chiharu Shiota, como ela chegou nessa linguagem tão característica, quais obras mais a definem e o que, de fato, esses fios significam.

Quem é Chiharu Shiota

A artista Chiharu Shiota nasceu em Osaka, no Japão, em 1972. Atualmente, ela vive e trabalha em Berlim, onde está desde o fim dos anos 1990. Ela é reconhecida internacionalmente pelas instalações de grande escala feitas com redes de fios, que são quase sempre vermelhos ou pretos, e envolvem objetos do cotidiano. Além desse tipo de instalação que, sem dúvida, é sua marca registrada, a sua produção passa por performance, escultura, fotografia, desenho e cenografia. Ou seja: uma mulher multifacetada.

Da pintura às instalações de fio

Chiharu estudou pintura a óleo na Universidade Kyoto Seika entre 1992 e 1996. Lá pela metade desse período, por volta de 1994, ela fez um intercâmbio na Australian National University, em Canberra. Foi lá que produziu a “Becoming Painting”, sua primeira performance. Para isso, ela cobriu o próprio corpo com tinta esmalte vermelha, um gesto que já apontava para fora da tela. Inusitada, como sempre.

Formação e mudança de linguagem

Foi também nessa época que um mal-entendido acabou mudando o rumo da vida dela. Lá pelos seus 19 anos, Chiharu tinha ficado profundamente marcada por uma exposição da escultora polonesa Magdalena Abakanowicz, que passou por Tóquio em 1991, e decidiu tentar estudar com ela.

Durante o intercâmbio em Camberra, uma colega de curso viu o catálogo de Abakanowicz que Chiharu carregava e confundiu o nome com o de sua própria professora em Hamburgo: a performer sérvia Marina Abramović. Ela imaginou que Chiharu se interessava pelo trabalho de Abramović, e se ofereceu para apresentá-las. Chiharu então preparou um portfólio caprichado e o enviou a Hamburgo por meio dessa colega, acreditando que chegaria até Abakanowicz. Mas, como você já deve estar imaginando sim, ele chegou às mãos de Abramović. E não parou aí: ela lhe respondeu, convidando-a para ir estudar na Alemanha. “Eu não tinha certeza, na época, se elas eram duas pessoas diferentes”, reconheceu Chiharu depois, segundo o ensaio “From In Silence”, publicado pela Kanagawa Prefectural Gallery em 2007.

Ainda assim, ela decidiu aceitar o convite de Abramović e foi para a Hochschule für Bildende Künste de Braunschweig, na Alemanha, a partir de 1996. Ela já comentou sobre esse episódio em mais de uma entrevista ao longo dos anos, sempre reconhecendo que o erro foi decisivo pra sua trajetória. Foi com Abramović que Shiota aprendeu a trabalhar o corpo e a duração dentro da própria obra, uma base que ela carrega até hoje, mesmo tendo trocado a performance corporal pelos fios como matéria principal.

Já no ano seguinte, ela se mudou para Berlim, cidade que nunca mais deixou. De Braunschweig, seguiu para a Universität der Künste, também em Berlim, onde passou a estudar com Rebecca Horn a partir de 1999.

As obras mais marcantes de Chiharu Shiota

Ao longo de mais de trinta anos de produção, duas obras concentram a maior parte do que se sabe sobre Chiharu Shiota fora dos círculos especializados. Uma delas se destaca pelo tamanho e pela repercussão internacional e a outra por ter trazido a artista para perto do público brasileiro.

The Key in the Hand, a obra que a projetou internacionalmente

Em 2015, Chiharu Shiota representou o Japão na 56ª Bienal de Veneza com uma instalação chamada “The Key in the Hand”. Segundo o registro oficial do Pavilhão do Japão, a instalação reuniu 180 mil chaves doadas por pessoas do mundo todo, presas por fios vermelhos que tomavam o teto e as paredes da galeria, com dois barcos de madeira posicionados logo abaixo da rede. A maior parte da imprensa da época repetiu o número de 50 mil chaves, que era a meta de arrecadação anunciada por Chiharu antes da montagem: o total final, registrado pela própria organização do pavilhão, foi bem maior.

Linhas da Vida, a retrospectiva que já passou pelo Brasil

A instalação “Linhas da Vida” reuniu setenta obras, desde pinturas do início da carreira dela, em 1994, até fotografias, desenhos, vídeos e instalações, organizadas em cinco núcleos temáticos que convidavam o visitante a refletir sobre vida, propósito, conexões e memória.

A peça central era inédita: “Além da Memória”, que era uma espécie de nuvem suspensa a 13 metros de altura, feita de mais de mil folhas de papel em branco, inspirada no povo brasileiro. A retrospectiva rodou o país entre 2019 e 2020, com paradas no CCBB de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. A curadoria foi de Tereza de Arruda, a mesma que assina, anos depois, o núcleo da Bienal de Curitiba que leva mais uma instalação da Chiharu Shiota até o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, no Paraná.

O que significam os fios nas instalações de Chiharu Shiota

Os fios não são apenas um recurso decorativo na trajetória de Shiota. Chiharu já explicou, em mais de uma entrevista, o raciocínio por trás da escolha das cores: o vermelho remete a sangue, destino e relações humanas, o preto ao céu noturno se expandindo pelo universo, e o branco, presente em trabalhos mais recentes, à vida, à morte, à pureza e ao infinito.  As redes que esses fios formam funcionam como um mapa dessas conexões invisíveis entre pessoas, entre lembranças, entre o que já não existe mais e o que ainda pulsa aqui.

Esse mesmo vocabulário visual está por trás da obra que ela concebeu para o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, batizada de “Chiharu Shiota: O Espaço Entre Nós” e apresentada dentro da 16ª Bienal Internacional de Curitiba. Veja abaixo um vídeo do nosso passeio por lá:

Perguntas frequentes sobre Chiharu Shiota

Reuni aqui as perguntas que mais aparecem sobre ela e sua trajetória.

Quem é Chiharu Shiota?

Chiharu Shiota é uma artista japonesa nascida em Osaka em 1972, radicada em Berlim, reconhecida por instalações de grande escala feitas com redes de fio que envolvem objetos do cotidiano.

Qual é a obra mais famosa de Chiharu Shiota?

Sua obra mais famosa é “The Key in the Hand”, apresentada no pavilhão do Japão na Bienal de Veneza de 2015, com 180 mil chaves presas por fios vermelhos sobre dois barcos de madeira.

Por que Chiharu Shiota usa fios nas instalações?

Segundo ela, os fios representam as conexões humanas, memória e destino. As cores carregam significados específicos: vermelho para relações e sangue, preto para o universo, branco para vida e morte.

Chiharu Shiota já expôs no Brasil?

Sim. Entre 2019 e 2020, a retrospectiva “Linhas da Vida” passou pelo CCBB de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, reunindo cerca de 70 obras. Em 2026, na 16ª Bienal no MON, ela traz a instalação “O espaço entre nós”, no olho.

Uma artista que transforma memória em espaço

O trabalho de Chiharu Shiota vai muito além dos fios que aparecem em várias instalações. Ela trabalha com o que fica depois que alguém usou um objeto, morou em algum lugar, guardou uma lembrança ou fez algum registro pessoal. É esse acúmulo silencioso de coisas que sustenta cada rede que ela constrói, do pavilhão de Veneza às salas do CCBB, e é esse mesmo raciocínio que vai orientar a leitura da obra dela em Curitiba. Você já reparou se algum objeto seu carrega mais história do que uma função específica?

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