Quem atravessa o hall do CIC, entre uma sala de exposições e outra, acaba passando na frente de painéis da tapeçaria Almir Tirelli. São cerca de 36 metros quadrados de lã, feitos à mão. São três painéis feitos com cores densas, repletos de barcos, procissões, casarios e pessoas trabalhando.
A tapeçaria Almir Tirelli nasceu para outro endereço: o saguão de desembarque do antigo Aeroporto Hercílio Luz, onde dava as boas-vindas a quem chegava à Ilha. Ela foi retirada de lá, ficou dois anos guardada em Curitiba, mas voltou à cidade e está exposta no Centro Integrado de Cultura, em Floripa.
Neste artigo vou te contar o que podemos ver em cada painel, a forma como a lã foi trabalhada cuidadosamente, o que aconteceu com a obra depois que o aeroporto mudou e o que você precisa saber pra ver tudo de perto.
- O que é a tapeçaria Almir Tirelli do CIC
- Quem foi Almir Tirelli
- Como foi feita a tapeçaria Almir Tirelli: lã atada nó por nó
- Os três painéis da tapeçaria Almir Tirelli, um a um
- Festas, história e trabalho: como ler os três painéis juntos
- Por que as tapeçarias saíram do aeroporto de Florianópolis e como voltaram
- Casarios da Praça Quinze: a tapeçaria menor em frente ao MASC
- Horário, ingresso e como chegar ao CIC
- Perguntas frequentes sobre a tapeçaria Almir Tirelli
- Onde estão hoje as tapeçarias de Almir Tirelli?
- Por que as tapeçarias saíram do aeroporto de Florianópolis?
- Qual técnica Almir Tirelli usava nas tapeçarias?
- O que cada painel da tapeçaria Almir Tirelli representa?
- Qual o tamanho da tapeçaria Almir Tirelli?
- Precisa pagar para ver a tapeçaria de Almir Tirelli?
- Vale a pena ver a tapeçaria Almir Tirelli de perto?
O que é a tapeçaria Almir Tirelli do CIC
A tapeçaria Almir Tirelli do CIC é um conjunto de três painéis de lã feitos à mão, em ponto de nó, concluídos em 1974 e instalados em 1976, no terminal que acabava de ser inaugurado. A Fundação Catarinense de Cultura (FCC), que atualmente é guardiã da obra, a descreve como um conjunto com uma área total de 36 metros quadrados. O conjunto (o tríptico) é considerado a maior tapeçaria artesanal já feita no Brasil.
“Tríptico” é a forma como chamamos obras feitas em grupos de três, nesse caso, três painéis. Nele, Tirelli dedicou um dos painéis às festas daqui, outro à história da cidade e o terceiro ao trabalho. Juntos, esses três formam um retrato bastante completo da Ilha de Santa Catarina. A obra foi paga por empresários catarinenses.
Hoje o tríptico está no hall do Centro Integrado de Cultura, na avenida Governador Irineu Bornhausen, no bairro Agronômica, exposto ali desde janeiro de 2025.
Quem foi Almir Tirelli
Almir Tirelli nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1926, e aprendeu seu ofício por conta própria. Um autodidata. Ele chegou a Santa Catarina na segunda metade dos anos 1960, instalou-se em Palhoça e logo depois na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, que foi sua casa até meados dos anos 1990.
Tirelli fez de tudo um pouco quando se trata de arte: pintou, desenhou, esculpiu e chegou até a atuar no cinema. Mas foi na tapeçaria que ele se encontrou e fez a obra pela qual ele é mais lembrado. Deixou milhares de peças, que hoje se encontram em acervos espalhados por diversos lugares como, por exemplo, o Palácio da Alvorada, em Brasília, e o Banco Mundial, em Washington.
Em 1993, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina lhe deu o título de cidadão catarinense. Ele deixou o estado em 2000, rumo a Minas Gerais, e em 2008 mudou-se para Guarapari, no Espírito Santo, onde morreu em 2012, aos 86 anos.
Como foi feita a tapeçaria Almir Tirelli: lã atada nó por nó
É interessante saber que essas peças não foram produzidas com um tear. Para produzir os painéis de tapeçaria, Almir Tirelli usou a talagarça, que é uma tela de trama aberta e quadriculada, sobre a qual ele amarrou pequenos nós de lã, um de cada vez, formando as imagens que hoje conseguimos ver. Essa técnica tem um nome: smirna. É a mesma dos tapetes de nó da tradição oriental.
Se você olhar de perto, vai perceber, pela superfície, que ele variava o comprimento dos fios. Onde a lã é mais longa, ela sobe e fica em relevo. Para as tramas mais baixas e lisas, ele usava o meio ponto, que é um bordado com os pontos mais inclinados. É essa diferença na altura dos nós que separa as figuras do fundo nesses painéis, quase parecendo uma pintura feita de pequenas sombras, que são o resultado dos nós mais altos.
Os três painéis da tapeçaria Almir Tirelli, um a um
Cada painel mede cerca de 2,85 por 3,85 metros, segundo a FCC. Para entendê-los é preciso olhar com calma, da esquerda para a direita, na ordem em que em foram pensados por Tirelli.
Painel da esquerda: festas e fé
No primeiro plano do painel da esquerda, sobre a água, você vê a procissão marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, com o barco Stela Maris cercado de barcos de pesca. Ao lado, vem a procissão do Senhor dos Passos, marcada pelo roxo da Paixão.
A festa de rua ocupa o resto da cena. Há o carnaval, com o carro alegórico de uma das antigas sociedades carnavalescas da cidade, o Boi de Mamão (uma brincadeira popular encenada, em que um boi e outros bichos dançam, com a Maricota entre eles) e o Pau de Fita, dança em que os participantes trançam fitas coloridas em volta de um mastro. Ao fundo, casarios de sacadas de ferro e a Ponte Hercílio Luz.
Na mesma parede se dividem a procissão e a folia, que é um retrato de como a Ilha se desenha no cotidiano. O roxo da Paixão e o carnaval de rua, por aqui, dividem o mesmo calendário e a mesma paixão popular.



Painel central: a história da Ilha
O painel do meio já tem um tom diferente, algo mais cerimonial. No centro, um mapa antigo da Ilha traz o nome de Santa Catarina em latim e a data de 1549, cercado de caravelas e embarcações dos primeiros navegantes. A composição lembra as gravuras em madeira do século XVI que ilustraram o livro do alemão Hans Staden, publicado em 1557. Staden esteve na Ilha de Santa Catarina em 1550.
Em volta do mapa aparecem a Fortaleza de São José da Ponta Grossa, Francisco Dias Velho (fundador da povoação de Nossa Senhora do Desterro, nome antigo de Florianópolis), as arcadas do Aqueduto de São Miguel, a Casa dos Açores e os casarios da antiga Desterro. Aparecem ainda as bandeiras do Império e de Santa Catarina e um casal imperial ao lado de um soldado.
O casal merece atenção especial aqui. A leitura mais imediata é ver ali Dona Leopoldina e Dom Pedro I. Eu percebi, porém, que a imperatriz do painel tem cabelos pretos, e Leopoldina era loira, como registra o relato de um contemporâneo citado pela revista Pesquisa FAPESP. O bigode volumoso do imperador também destoa dos retratos de Dom Pedro I que conhecemos.
Para mim, faz mais sentido vermos ali Dom Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina, que visitaram Desterro em outubro de 1845.





Painel da direita: o cotidiano e o ofício
O painel da direita desce do palácio em direção à rua. À esquerda há uma casa simples com louça de barro e potes de cerâmica, do tipo que eram usados pra buscar água na cacimba. No centro de tudo, a pesca. Um pescador lança a tarrafa do trapiche, e na praia há homens e crianças puxando a rede do arrastão da tainha, um clássico da Ilha.
A fé volta pelo cortejo imperial da Festa do Divino Espírito Santo e pela igreja da Praça Sete de Setembro, no centro de Palhoça. No canto direito, uma rendeira faz renda de bilro sobre a almofada, com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e a Lagoa ao fundo. O tríptico termina na Lagoa da Conceição, onde Tirelli morou.





Festas, história e trabalho: como ler os três painéis juntos
Se forem lidos da esquerda para a direita, os painéis vão da festa à história, e depois da história ao trabalho.
Também é importante perceber que há uma ligação entre o tema e a técnica. A rendeira do último painel e a tapeçaria na qual ela é retratada parecem ter o mesmo andamento lento, feito de gestos repetidos: ela com os bilros, Tirelli com seus nós de lã.
Por que as tapeçarias saíram do aeroporto de Florianópolis e como voltaram
Esses painéis foram inicialmente instalados no salão de desembarque do antigo aeroporto. Eles recepcionavam quem chegava na cidade, mostrando a cultura da Ilha na parede. Em 2009, o tapeceiro Soheil Manshadi restaurou os painéis.
Anos depois, quando começou a construção do novo terminal, a obra foi retirada e levada para Curitiba. Era tão emblemática que esse movimento ganhou até os noticiários. Houve muita cobrança pelo retorno delas. Daí em diante, linha do tempo delas se desenha assim:
- 1976: os painéis são instalados no saguão de desembarque do Aeroporto Hercílio Luz.
- 2009: restauro feito por Soheil Manshadi.
- 2018: a obra sai do aeroporto, durante a construção do novo terminal, e vai para Curitiba.
- 23 de outubro de 2020: a Infraero assina em Curitiba o termo de doação à FCC, e as peças voltam a Florianópolis em um caminhão cedido pela Polícia Militar de Santa Catarina.
- 2020 e 2021: limpeza e conservação pelo Atecor, o ateliê de conservação e restauro da FCC.
- 22 de dezembro de 2021 a março de 2022: mostra Tapeçarias de Tirelli, no Museu Histórico de Santa Catarina, no Palácio Cruz e Sousa, com entrada gratuita.
- Janeiro de 2025: as tapeçarias passam a ocupar o hall do CIC.
Casarios da Praça Quinze: a tapeçaria menor em frente ao MASC
No corredor em frente à entrada do MASC, o Museu de Arte de Santa Catarina, está outra tapeçaria de Tirelli, bem menor que o tríptico. É de 1975 e tem pouco menos de um metro e meio de altura por quase dois de largura. O título é Casarios e ruas transversais da Praça Quinze de Novembro, cercada.
A cena é de fim de tarde, com céu laranja de verão. Os antigos sobrados do centro histórico de Florianópolis ocupam quase toda a composição, e dentro deles as luzes amarelas começam a acender. O poste da esquina já brilha com a mesma luz quente. No canto direito aparecem o muro e as grades que cercavam a praça.
O tríptico mostra a Ilha inteira. Esta peça fica num lugar só, com o mesmo cuidado nos detalhes. Tirelli tomou as liberdades que a lã exige e, mesmo com elas, as tapeçarias preservam muito do aspecto da Florianópolis antiga.
Horário, ingresso e como chegar ao CIC
Destaquei aqui esses dados para você. Você pode anotar, tirar um print, ou clicar no botão “Baixar este card” logo abaixo para salvar tudo, ok?
Informações práticas
CENTRO INTEGRADO DE CULTURA (CIC)
Endereço: Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5600, Agronômica, Florianópolis (SC).
Horário de funcionamento: diariamente, das 10h às 21h.
Ingresso: gratuito.
Onde ficam as tapeçarias: o tríptico, no hall; Casarios e ruas transversais da Praça Quinze de Novembro, cercada, no corredor em frente à entrada do MASC.
Contato: (48) 3664-2555. O endereço, o horário e o telefone acima seguem a página oficial de localização do CIC.
ondeverarte.com.br
Perguntas frequentes sobre a tapeçaria Almir Tirelli
Reuni aqui as dúvidas mais comuns de quem quer ver a obra de perto.
Onde estão hoje as tapeçarias de Almir Tirelli?
No hall do CIC, na Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5600, no bairro Agronômica, em Florianópolis. A FCC mantém o tríptico exposto ali desde o início de 2025. Uma tapeçaria menor, Casarios e ruas transversais da Praça Quinze de Novembro, cercada, fica no corredor em frente à entrada do MASC.
Por que as tapeçarias saíram do aeroporto de Florianópolis?
Elas foram retiradas do antigo terminal durante a construção do novo aeroporto e foram para Curitiba, onde ficaram de 2018 a 2020. Em outubro de 2020, a Infraero doou o conjunto à FCC, e as peças voltaram a Florianópolis.
Qual técnica Almir Tirelli usava nas tapeçarias?
O ponto smirna, em que nós de lã são atados um a um sobre a talagarça, uma tela de trama aberta. Em algumas áreas ele usava o meio ponto, que deixa a superfície baixa e lisa. A diferença de altura entre os dois cria o relevo.
O que cada painel da tapeçaria Almir Tirelli representa?
O da esquerda mostra as festas e a religiosidade popular. O do centro trata da história da Ilha, com o mapa antigo e a antiga Desterro. O da direita retrata o cotidiano e o trabalho, e termina na Lagoa da Conceição.
Qual o tamanho da tapeçaria Almir Tirelli?
Segundo a FCC, o conjunto tem 36 metros quadrados, em três painéis de aproximadamente 2,85 por 3,85 metros cada. A FCC considera a obra a maior tapeçaria já feita artesanalmente no Brasil.
Precisa pagar para ver a tapeçaria de Almir Tirelli?
Não. A entrada no CIC é gratuita, e o hall funciona diariamente, das 10h às 21h.
Vale a pena ver a tapeçaria Almir Tirelli de perto?
Vale muito, e o motivo está nos detalhes. De longe, o tríptico impressiona pelo tamanho. De perto, cada painel traz barcos de pesca, sacadas de ferro, potes de barro, uma rendeira, e uma única passada de olhos não dá conta de tudo. São detalhes que você pode olhar por um bom tempo e ainda asim encontrar coisas novas.
Além disso, o CIC reúne museus, cinema e salas de exposição, e é um dos espaços de arte de Florianópolis que mais indico na capital, o que torna fácil juntar a tapeçaria a outra visita no mesmo dia.
Você chegou a ver essas tapeçarias no saguão do aeroporto, antes de 2018? Conta para mim nos comentários o que você lembra.

